Veneza Archives | By The Eyewear
Perdida em Belluno

Belluno é uma cidade que fica na região do Veneto, a 100km de Veneza. Poderia ser apenas mais uma região pacata da Itália, com uma população pequena, um dialeto próprio, e um cardápio maravilhoso. Mas, esta cidade é de extrema importância para os #SpecsAddicts. Belluno é a capital internacional dos óculos, ou pelo menos foi, antes da entrada da China e da Europa do Leste como players importantes.

Esta pequena cidade ou vilarejo, para quem vem do Brasil, é o cerne da produção de óculos da Itália. Lá são produzidas as peças mais luxuosas e desejadas do mercado. As grandes produtoras (leia-se Luxottica, Safilo, Marchon e Marcolin) tem ao menos uma fábrica na região. Além deles, há dezenas de pequenos produtores que fazem peças para marcas independentes e para aventureiros.

Ingênua, me mandei de Veneza para Belluno de trem, sozinha, com meu celular (porque uma câmera já é transtorno demais) e meu caderninho. Agendei visita em 5 fábricas da região.

Eis que chego à estação de Belluno, atrasada, óbvio, e descubro que Belluno é a capital da província, mas lá não há absolutamente nada, apenas cafés e um pequeno comércio. Um xaveco depois, e um café café mais tarde com um taxista romeno me renderam um passeio até a Zona Industriale 1. O que na minha cabeça seria Belluno, uma cidade gloriosas, agitada e cheia de pessoas fashion usando óculos e roupas bacanérrimas, nada mais era que uma rua, (UMA RUA) com galpões e fabricas de diversos tamanhos, sem nenhuma placa de identificação! Me senti chegando em um filme do Stephen King, onde todos os cidadãos foram abduzidos e eu sobrei, por algum motivo a ser descoberto nos próximos capítulos.

Sem nada a perder bati na porta de algumas fabricas e consegui três entrevistas (a cidade é tão inóspita e mal sinalizada que nunca encontrei as tal 5 fábricas com quem marquei entrevistas). Os meus interlocutores ficaram arrasados ao perceber, lá pelos 10 minutos de conversa, que eu não ia fazer uma grande compra, só gastar o tempo deles mesmo! Mas, esta minha mania de sair falando me rendeu alguns belos passeios em fábricas de ponta, extremamente eficientes, e histórias maravilhosas do processo de elaboração e design de um óculos, que pode levar meses.

Como se não bastasse toda esta emoção, nosso amigo taxista, sim, ele ficou com pena de mim e resolveu me esperar e me dar uma carona até a estação (fofo), decidiu me deixar em outra cidade, há 15 min de Belluno, certo de que lá o trem passaria antes e me levaria direto para Santa Lucia, Veneza. Foi neste ‘cenário’ que o shooting (sem vergonha alguma) aconteceu! O trem demorou apenas 4h. A cidadezinha, fofa, Belluna, não tinha taxis, farmácias ou cafés. A cidadezinha, leia-se uma rua, com casas fechadas por conta dos 40 graus do verão, sem comércio, e sem pessoas, me deixou sozinha com minha imaginação. Fiquei só do lado de fora da estação, claro, pois as estações só abrem quando o trem passa (afff), com meu celular, um montão de histórias e aventuras na cabeça, e ninguém para contar (cadê você Internet quando eu mais preciso???)!

Lá fui eu me entreter com meu celular e o protagonista da vez: Alice goes do Cannes da Anna Karin-Karlsson.

Guia de óticas em Veneza

“Sempre que descrevo uma cidade estou me referindo a Veneza. Uma vez que as imagens da memória são traduzidas em palavras, as memórias se perdem. Talvez eu tenha medo de perder Veneza. Ou quem sabe ao falar de outras cidades eu já a tenha perdido, pouco a pouco.”Polo, Cidades Invisíveis, Ítalo Calvino

Não existem meias palavras ou emoções incompletas quando se trata de Veneza. Não é uma cidade, é uma experiência. Não é antiga ou moderna, ela é em todo seu esplendor, o presente. Os turistas que por lá passam costumam se dividir entre os que amam e os que odeiam esta cidade cercada por 146 ilhas entrelaçadas por 450 pontes.

Para o poeta Brodsky, Veneza está acima da categoria de cidade, é uma vivência, um universo paralelo, um divisor de águas para quem pode se dar ao luxo de caminhar sem pressa por esta cidade que desconhece o movimento de carros, absorvendo seus ruídos, a melodia dos sinos, seus odores e sua infinita paleta de cores. Por lá não se caminha, se flutua.

Esta cidade, muito aquém da categoria de cidade, por ser ela metade conto de fadas e metade realidade, propicia uma sensação constante de ineditismo e descobertas ao se permitir caminhar e se perder em suas infinitas vielas que se desdobram magicamente. Veneza não é moderna, é eterna. Veneza é simplesmente, Veneza. Já dizia Peggy Guggenheim, uma das maiores e mais fiéis amantes que Veneza já teve:

Presume-se sempre que Veneza é a cidade ideal para uma lua de mel, mas é um erro grave. Viver em Veneza, ou simplesmente visitá-la, significa se apaixonar por ela, e no coração não sobra espaço para mais nada.

Fui tomada por este amor súbito, e é para esta cidade que volto a cada dois anos. Um dos motivos é para reviver a cidade mediante à famosa Bienal de Veneza, que a veste como uma criança que se fantasia para uma apresentação escolar. A cada dois anos me deparo com uma nova cidade, com novos artistas, discussões cada vez mais calorosas, premissas e obras inusitadas. Em meio a toda esta arte, encontro também, minha maior fonte de inspiração: a produção ótica que em Veneza (bem como tudo naquela cidade) é pra lá de especial. Ousaria dizer que há algo na água de Veneza (poluição à parte), porque a criatividade dos designers é aquém do resto do mundo. Se as ruas guardam segredos, então os mais bem escondidos são as óticas que abrigam peças esplendorosas.

Veja uma seleção das melhores óticas de Veneza.

Ottica Urbani

Marco Frezzeria 1280, Venezia
Tel. 041 5224140

A loja data de 1952. Por lá já passaram Hemingway, Vedova, Carlo Scarpa e o cliente mais famoso: Elton John. São os três filhos do original Urbani que hoje gerenciam a loja. Todos os modelos são fabricados à mão em Belluno (centro de produção ótico há 3 horas de Veneza), e todas as peças têm uma coisa em comum: design “irônico”, como diz a própria Fosca Urbani. “Um óculos não pode ser apenas um óculos, deve ser uma peça divertida, atraente e excepcional”. Eis o que o visitante encontrará na Urbani. E tenha certeza que será magnificamente bem atendido pelos Urbanis, verdadeiros venezianos, que como bons italianos, são ótimos contadores de história e bons galanteadores. As peças são produzidas em pequena escala, os desenhos são exclusivos e não há outros pontos de venda que não sejam na loja física ou no e-commerce da marca. O endereço ideal para quem busca exclusividade, bons preços e modelos excêntricos.

Ottica Mantovani

Merceria del Capitello, 4860, 30124 Venezia VE, Itália

A Mantovani inaugurou em 1871 e permanece até hoje no mesmo endereço. Ainda é uma ótica familiar, com produção em Belluno. A designer é a Senhora Carlon (filha do Sr. Carlon, que comprou a ótica nos anos 40). Dentre a clientela estão Peggy Guggenheim nos anos 50 e, mais recentemente, Elton John (amante de Veneza e dos óculos). A predileção da Sra Carlon são os clientes com personalidade e audácia, aptos a provar suas criação assimétricas e brincalhonas. Quem for à loja com tempo poderá visitar o pequeno ‘museu’ nos fundos, onde está um acervo invejável com peças raríssimas que datam do início do século 20.

Ottica Carraro

Calle de la Mandola, 3706, 30124 Venezia VE, Itália

A Carraro é mais moderna e menos exclusiva que as outras óticas venezianas. A marca própria é menos expressiva do que os modelos comerciais que a loja vende. Mas, vale ressaltar que o acetato fosco, que ao olho parece emborrachado, é deslumbrante. São poucos modelos e as coleções não são atualizadas anualmente, mas como todos os modelos “fatto a mano” em Belluno, a qualidade é indiscutível. A Carraro é uma boa dica para homens e mulheres com gostos clássicos, amantes dos modelos redondos e de estampas tartaruga.

Micromega

Calle delle Ostreghe, 2436, 30124 Venezia VE, Itália

Imagine entrar no laboratório de um cientista maluco, aquele personagem verdadeiramente clichê, com um óculos transparente high tech, gadgets, e tudo clean ao seu redor. Esta é a sensação que se tem ao entrar na Micromega, uma ótica uber high tech a poucos passos do Campo de San Stefano. É quase incongruente um lugar tão tecnológico em uma cidade tão antiga. A Micromega é destino para quem quer gastar (muito) para ter uma peça exclusivérrima, e ao mesmo tempo tem personalidade de sobra para bancar modelos que se aproximam mais de protótipos do que peças comerciais. A expertise está na produção de modelos em titânio, chifre de búfalo e bamboo. Mas, a graça não está, digamos, no design das armações. A Micromega trabalha as lentes. Ou seja, cada par de lentes é desenhada e recortada a laser formando desenhos delicados de folhas, formas assimétricas, ou contornos geométricos. As peças são muito leves e extremamente delicadas. São muito interessantes (do ponto de vista da fabricação) mas nem sempre lisonjeiros.

 

Ottica Manuela

Salizzada San Samuele, San Marco, 3145

O mix de peças da Manuela é sublime. A decor é super divertida, você se sente em um closet meio decô rodeado por óculos bem descolados e originais. O mix vai se Io Eyewear a PQ, passando por Saturnino. O forte é o design italiano independente, mas isto não significa que não há espaço para o resto do mundo. O time de vendas é descolado e bem humorado. Vale a visita.

 

Veneza através das lentes de Dzmitry Samal

Intersection 01

Desbravando Veneza de maneira magnífica: com o Intersection 01 Ocean Blue do Dzmitry Samal. O dia foi dedicado a ver a cidade através destas lentes cinza dégradée com armação que mistura elementos futuristas com curvas retrô. É tanta informação em um óculos só que vale abrir um parentes aqui e explicar quem é a metamorfose por trás do Samal Design, ainda pouco conhecido.

Tudo indica que este semi anonimato mudará em breve. Samal acabou de ser indicado na categoria design como um dos cinco favoritos ao Silmo D’Or, o equivalente ao Oscar para nosso setor.

Nascido na Bielorrússia, Dzmitry Samal começou a carreira como designer de automóveis, mas viu que havia pouco espaço para experimentação e ousadia neste projetos, todos caros e demorados. Migrou para Paris, onde se envolveu com design de objetos. O marco foi a concepção e comercialização do primeiro relógio de pulso feito em concreto. O próximo passo foi a produção de uma linha de óculos experimental que dialogasse com o excesso de informação e tecnologia que atualmente nos assola, resultando na linha 5DPI, composta por peças que parecem pixeladas e saídas da tela de um videogame qualquer.

Todos os seus designs são resultado de inspiração multidisciplinar que olha para a art deco, o construtivismo urbano, os games dos anos 80 e o fascínio com o futuro e a informação. A base das coleções está no conceito de “Futurismo neo-retrô”, nas palavras do próprio designer.

O resultado é um produto genuíno, criativo e diferente de qualquer outro. Temos como objetivo desenvolver peças que façam as pessoas se sentir bem. Queremos colocar um sorriso no rosto de todos os nossos clientes, sem qualquer limitação de idade, sexo ou origem.

Peggy Guggenheim por um dia

E se sua meta fosse comprar uma obra de arte por dia?

I took advice from none but the best. I listened, how I listened! That’s how I finally became my own expert.

Peggy Guggenheim, cujo nome verdadeiro era Marguerite, foi uma das colecionadoras e mecenas que mais se destacou no século XX. Peggy adquiriu obras dos artistas contemporâneos mais importantes da época, como Salvador Dali, Joan Miró, Marc Chagall, René Magritte, Jackson Pollock, Giorgio di Chirico, Pablo Picasso, Piet Mondrian, Yves Tanguy e Max Ernst (os três últimos amantes e marido de Peggy, respectivamente).

Peggy levava uma vida excêntrica e boêmia, convivendo com inúmeros artistas, especialmente no período entre-guerras. Este ambiente fervoroso e criativo, e seu faro por tendências, fez dela uma ditadora de modismos.

Segundo reportagem da Vogue, ela gostava de dizer que as roupas refletiam seu estado de espírito e defendia a moda como uma importante expressão artística. Não é de se espantar então que ela tenha elevado o óculos a um outro patamar: arte-desejo.

Entre tantas extravagâncias fashion, uma delas ganhou especial notoriedade, tornando-se um dos ícones de seu estilo: os óculos de sol em formato de borboleta. A peça foi desenhada pelo amigo surrealista Edward Malcarth em 1966. A armação apresenta lentes espelhadas ton-sur-ton, com perfis contrastantes em tons castanhos, remetendo às recordações românticas e reflexões sobre os azuis dos canais de Veneza.

No ano passado, a Safilo lançou uma edição limitada dos icônicos óculos da Peggy em comemoração aos 80 anos da empresa. Os modelos podem ser comprados na fundação Peggy Guggenheim e na Solstice.

Vivenciar Veneza pelas lentes azuis de Malcarth, vendo os canais do terraço da fundação Peggy Guggenheim é um sonho! Passar pela Casa da Peggy com calma é um raro prazer aos amantes de arte. Outra dica é o documentário “Peggy Guggenheim-Art Addict“. O longa metragem conta a história da famosa colecionadora de arte. Em suma, Peggy vai muito além das histórias que ouvimos e lemos, ela era uma desbravadora, uma mulher independente e cheia de atitude antes da invenção de qualquer movimento feminista. Ela é ainda hoje um ícone contemporâneo.


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